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20,3 milhões de brasileiros estão em endividamento de risco, diz o BC

Número cresceu 75% em cinco anos e já é 17% dos devedores; Galípolo promete novas medidas contra oferta agressiva de crédito.

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Gabriel Galípolo, de terno azul, em pé diante da cadeira numa reunião de comissão do Senado
Foto de arquivo: O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em comissão do SenadoFoto: Saulo Cruz/Agência Senado

Resumo

  • O BC contou 20,3 milhões de brasileiros em endividamento de risco em junho, 75% a mais que em 2021.
  • Quem ganha até 2 salários mínimos compromete 42% da renda com dívidas; no cartão, são 15%.
  • Galípolo diz que o BC deve anunciar mais medidas ainda este ano, com foco em quem usa o rotativo.

Há 20,3 milhões de pessoas no Brasil com dívidas a ponto de ameaçar o orçamento, segundo o Banco Central (BC). O número, de junho deste ano, está no Relatório de Estabilidade Financeira divulgado nesta terça-feira (27) e é 75% maior que o de cinco anos antes. Ele representa 17% dos devedores do sistema financeiro. Galípolo, que comanda o BC, disse que o banco pretende lançar, até dezembro, mais medidas contra a oferta agressiva de crédito.

O que o número quer dizer

Segundo o BC, “endividamento de risco” não é o mesmo que inadimplência: o conceito aponta maior vulnerabilidade financeira, e nem todos os 20,3 milhões estão com contas atrasadas. O BC marca alguém como devedor de risco quando ele cumpre ao menos dois destes quatro pontos:

  • parcela de empréstimo ou financiamento paga com mais de três meses de atraso;
  • mais da metade do ganho mensal gasta com prestações;
  • cheque especial, empréstimo pessoal sem desconto em folha e rotativo do cartão usados juntos;
  • sobra de dinheiro, depois das contas de dívida, menor que a linha de pobreza.

A conta por trás da alta

Se o grupo aumentou 75% de 2021 para 2026, o ponto de partida era de cerca de 11,6 milhões de pessoas (20,3 milhões divididos por 1,75). Em cinco anos, portanto, mais de 8,7 milhões de brasileiros entraram nessa faixa. Como 20,3 milhões são 17% dos devedores, o sistema financeiro tem algo perto de 119 milhões de pessoas com dívida. Os dois números são cálculos do Fato em Dia a partir dos dados oficiais, não valores divulgados pelo BC.

Quem está mais pressionado

O peso das dívidas é maior para quem ganha menos. Entre os 61,2 milhões de brasileiros com renda de até dois salários mínimos, as dívidas consomem 42% do rendimento em junho de 2026; só o cartão de crédito responde por 15%. Em termos simples, a cada R$ 1.000 de renda desse grupo, R$ 420 vão para pagar dívida. No topo da pirâmide, para quem recebe acima de dez salários mínimos, o peso total é de 18,6%. O relatório mostra ainda que o peso das dívidas de cartão na renda aumentou em todas as faixas.

O que Galípolo disse

O presidente do BC afirmou que as próximas iniciativas devem priorizar quem já usa o crédito rotativo do cartão ou tem atrasos relevantes. “Pretendemos adicionar medidas ainda este ano”, disse. Ele destacou a preocupação com modalidades sem garantia, como cartão, cheque especial e empréstimo pessoal sem desconto em folha: “A preocupação que existe é nessas modalidades, em que estamos assistindo crescimento de maneira pouco sensível a preço”.

O que o BC já decidiu

Na sexta-feira (23), o BC anunciou regras para barrar ofertas inadequadas de crédito, como o Fato em Dia mostrou. Os bancos terão de oferecer um mecanismo para bloquear publicidade e propostas ativas de empréstimo. Para clientes vulneráveis ou em risco de endividamento excessivo, qualquer oferta dependerá de autorização prévia, específica e inequívoca, e só poderá tratar de alternativas que melhorem a situação, como renegociação e portabilidade, sem dinheiro novo. O bloqueio de ofertas passa a valer em 31 de março de 2027. Em julho de 2027 chegam os painéis na internet para o cliente acompanhar o que deve, e os limites para propostas de empréstimo que surgem no meio de uma transação de Pix.

O que fazer se a dívida apertou

  • Anote tudo o que deve, com o juro de cada contrato. Dívida de cartão rotativo e cheque especial costuma ser a mais cara.
  • Procure o banco para renegociar ou para portar a dívida para uma instituição que cobre juro menor. A portabilidade é um direito do consumidor.
  • A Lei do Superendividamento (Lei 14.181, de 2021) permite pedir à Justiça, com conciliação entre o consumidor e os credores, um plano de pagamento para o conjunto das dívidas, preservando o mínimo necessário para viver.
  • Desconfie de oferta que chega por mensagem, telefone ou aplicativo sem que você tenha pedido: é justamente esse tipo de abordagem que o BC quer limitar.

Para comparar quanto rende ou custa o dinheiro, o site tem a calculadora de poupança.

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