Promessas de Lula e Flávio na economia esbarram em Orçamento com 90% dos gastos fixos
Economistas apontam que nenhum dos dois detalhou como pagar as medidas; a dívida pública chega a R$ 11,1 trilhões, 82,9% do PIB.
Resumo
- Economistas veem pouca clareza sobre como Lula e Flávio Bolsonaro financiariam as promessas econômicas.
- Dos R$ 2,8 trilhões de despesas primárias de 2027, 90% já estão comprometidos com gastos obrigatórios.
- Os dois candidatos se enfrentam neste domingo (25), no segundo turno.
A véspera do segundo turno encontra Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) com um cardápio extenso de promessas econômicas e poucas respostas sobre quem vai pagar a conta. Economistas consultados neste sábado (24) afirmam que nenhum dos dois detalhou a origem dos recursos para tirar as ideias do papel, num cenário em que as contas públicas deixam pouco espaço para novidades.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. A dívida pública brasileira está perto de R$ 11,1 trilhões valor que corresponde a 82,9% do PIB, ou seja, perto de dez meses de tudo que o país produz. Das despesas primárias do Orçamento de 2027, estimadas em R$ 2,8 trilhões, nove em cada dez reais já têm destino certo: pensões e aposentadorias, folha de pagamento, auxílios e demais gastos que a lei obriga a fazer.
Pouca margem para escolher
Há anos, as despesas obrigatórias, como as ligadas à Previdência, à saúde e à educação, crescem acima do ritmo que as regras fiscais permitem. O resultado é que sobra cada vez menos dinheiro para investimentos e para gastos que o governo pode decidir quando e como realizar. Para Murilo Viana, economista com mestrado na Unicamp que estuda contas públicas, os cálculos do Tesouro Nacional já mostram que o dinheiro livre do governo deve diminuir também nos próximos anos, o que reduz a margem de escolha do próximo presidente.
Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra que, em setembro, 81,7% dos lares brasileiros estavam endividados, pouco abaixo dos 82% de agosto. O endividamento, porém, bateu recordes consecutivos ao longo de 2026, e foi sobre ele que os dois candidatos concentraram boa parte das propostas.
O plano de Flávio para as dívidas
Flávio apresentou, em transmissão ao vivo e nos debates, a ideia de o governo adquirir das instituições financeiras os débitos de pessoas e empresas em atraso e refazer os contratos pela Caixa, cobrando taxas mais baixas e dando mais tempo para pagar. O desenho prevê seis meses de carência para pessoas físicas e um ano para empresas, período em que os devedores não pagariam as parcelas. Outra ideia, o “Ganha-Ganha”, premiaria com pontos quem pagar em dia ou fizer capacitação; a pontuação valeria como desconto nos juros e como cashback.
Viana vê risco na engrenagem. “Utilizar a Caixa Econômica Federal para fazer esse tipo de operação é um risco gigantesco de transferir a dívida privada para uma instituição pública”, afirmou. Daniel Duque, do FGV Ibre, centro de estudos econômicos da Fundação Getulio Vargas, alertou para o efeito sobre o crédito: “Os bancos podem pensar: se o governo pode fazer isso agora, quem garante que não fará de novo daqui a dois anos?”.
Na área fiscal, a economista Daniella Marques (Republicanos), integrante da equipe de Flávio, disse no início do mês que o plano inclui economizar o equivalente a 1,5% do PIB, mexer nas regras do arcabouço fiscal e enxugar a máquina pública. A campanha batizou o pacote de “tesouraço”, mas nunca detalhou quais despesas seriam cortadas, em quanto tempo e de que forma. Para Ricardo Hammoud, também do FGV Ibre, promessas genéricas de eficiência não bastam, porque mudanças estruturais exigiriam reformas que permitam mexer em gastos obrigatórios.
Flávio também promete rever pontos da reforma tributária, reduzir impostos e encargos e restabelecer o Perse, programa de benefícios tributários ao setor de eventos encerrado em 2025 pelo governo Lula, que apontou custo elevado e indícios de irregularidades no uso do benefício. Há também o ViraPIX, que devolveria via PIX uma fração do que as famílias gastam com energia, prestações e tarifas; a campanha ainda não informou quem teria direito, em que valores e com que fonte de financiamento. Daniella Marques afirmou ainda que um governo do PL pretende acabar com o “split payment”, mecanismo da reforma tributária que separa o imposto no momento do pagamento.
O que Lula já fez e promete
Lula sancionou na quarta-feira (21) a lei que perdoa dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) com a União. Segundo o governo, o perdão alcança R$ 12,6 bilhões em débitos de perto de 3,6 milhões de microempreendedores, registrados na Dívida Ativa até o dia 13 deste mês, somando juros, multas e encargos legais. A lei também eleva de forma gradual o limite anual de faturamento do MEI, até R$ 140 mil em 2028.
Os MEIs também entraram no Desenrola 3.0, programa em que o governo compra carteiras de dívidas dos bancos, que precisam conceder abatimento mínimo de 90% num conjunto de débitos avaliado em aproximadamente R$ 6 bilhões. Para os economistas, as duas medidas pesam no caixa de formas diferentes: o perdão abre mão de uma receita que a União esperava obter, e a compra de carteiras exige dinheiro público. Duque observou que a repetição de programas de renegociação leva devedores e bancos a esperar a próxima rodada: “o governo vai fazer essa renegociação, então não vou pagar porque vai sair mais barato eu esperar pelo próximo programa”.
Para um eventual novo mandato, Lula prevê expandir despesas com o Pé-de-Meia e com o Bolsa Família, manter a política de valorização do salário mínimo e aumentar investimentos públicos, além de adotar tarifa zero no transporte público aos sábados e domingos e manter os subsídios aos combustíveis. Hammoud questiona apostar em maior arrecadação para bancar o aumento de despesas e diz que o arcabouço fiscal “fracassou no controle da dívida”. Já a economista Juliana Inhasz, do Insper, avalia que as medidas voltadas aos pequenos empresários têm apelo eleitoral e lembra que toda promessa precisa explicar de onde virá o dinheiro.
O que está em jogo para o leitor
Na prática, quem vencer neste domingo (25) terá de escolher entre cortar despesas obrigatórias, que dependem de mudanças em lei ou na Constituição, elevar a arrecadação ou aceitar uma dívida maior. Viana resume o dilema: medidas de ajuste são impopulares no curto prazo, e é fácil defender o ajuste fiscal até o momento de apontar onde cortar. As campanhas de Lula e de Flávio ainda não informaram como pretendem fechar essa conta.
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