Lula diz na Globo que não sabia que o Bolsa Família ficou quase 4 anos sem reajuste
Presidente chamou a falta de correção de 'inexplicável', disse ter mandado compensar o que não foi pago e afirmou que a saída para a dívida pública é fazer a economia crescer.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou nesta quinta-feira (15), em entrevista à TV Globo, que não sabia que o Bolsa Família estava havia quase quatro anos sem reajuste. A pergunta, feita pela jornalista Renata Lo Prete, tocava num ponto sensível da campanha: o benefício só foi corrigido em 17 de setembro, a 17 dias do primeiro turno.
Lula classificou a situação como “inexplicável”. “Eu não sabia. É inexplicável que, no governo do Lula, alguém pense em não reajustar. É impensável. Mas aconteceu”, disse. Ele contou que cobrou explicações dos ministros ao descobrir o problema e que não quer que o público ouça “a reunião” em que isso foi discutido.
A cronologia do reajuste
O governo anunciou o primeiro reajuste do programa no mandato atual em 17 de setembro. Antes, em 31 de agosto, o Executivo havia enviado ao Congresso a proposta de Orçamento de 2027 sem prever recursos para corrigir o benefício. Perguntado se a decisão veio depois de a equipe econômica apontar espaço fiscal, Lula negou a ordem dos fatos: segundo ele, a determinação veio assim que soube da falta de correção. “Eu fui perguntar por que não aumentaram o Bolsa Família”, afirmou, acrescentando que havia espaço fiscal para bancar o aumento.
O presidente disse ainda que decidiu compensar os anos sem reajuste. “Eu tomei a decisão: a gente vai dar, e vai dar tudo o que a gente não deu, para a gente aprender, nunca mais [fazer isso]”, declarou. A entrevista não detalhou como nem quando essa compensação seria paga.
Dívida pública: “estou preocupado”
Em outro bloco, sobre a política econômica, Lula foi questionado a respeito da política de juros do Banco Central, comandado por Gabriel Galípolo, indicado por ele, e da avaliação do presidente do BC de que o modelo de crescimento baseado no estímulo ao consumo estaria esgotado. Sobre o aumento da dívida pública, respondeu: “Você acha que eu não estou preocupado? Eu estou preocupado. Eu criei uma família com cinco filhos. Eu sei o que é dívida”.
Para o presidente, o caminho para reduzir o déficit é a expansão da economia, e não o corte de despesas que atinjam os mais pobres. “O jeito de você resolver o problema fiscal é fazer a economia ficar crescendo”, afirmou. Ele argumentou que, em seus 50 anos de política, “toda vez que alguém quer resolver o problema fiscal, o povo pobre paga”, e disse que não quer que isso se repita.
Controle das contas e divergência com economistas
Lula reconheceu a importância do controle orçamentário: “Se a gente perdeu o controle do nosso orçamento, a coisa quebra e vai quebrar do lado mais fraco”. Ao mesmo tempo, admitiu divergências com economistas e defendeu políticas de crédito e incentivo à microeconomia para “fazer o dinheiro rodar na mão do povo”. Citou, como exemplo do que o crescimento pode entregar, a quitação da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o acúmulo de reservas internacionais nos primeiros mandatos.
Questionado se mudaria a condução da política econômica num eventual novo mandato, a resposta foi curta: “Estou propondo não cortar dinheiro dos pobres”.
O que vem a seguir
A entrevista de Lula faz parte da cobertura da Globo para o segundo turno, que terá também conversa com Flávio Bolsonaro, na sexta-feira (16), e um debate entre os dois. Os outros temas da conversa, como maioridade penal, tarifas dos EUA e segurança pública, estão na matéria Lula diz na Globo que é a favor de reduzir a maioridade penal. Para o beneficiário do Bolsa Família, o que está em aberto é a forma e o prazo de uma eventual compensação, que o presidente prometeu, mas não detalhou.
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