Zonas azuis: o que as populações mais longevas têm em comum e as críticas
Okinawa, Sardenha, Nicoya, Icária e Loma Linda ficaram famosas pela longevidade. Os hábitos chamam atenção, mas a ciência pede cautela com o conceito.

Resumo
- Okinawa, Sardenha, Nicoya, Icária e Loma Linda são as cinco regiões chamadas de zonas azuis.
- Movimento diário, laços sociais e muitos vegetais no prato são os hábitos que elas têm em comum.
- Pesquisadores questionam registros de idade, e os hábitos vêm de observação, que não prova causa.
Existem lugares no mundo onde, segundo relatos, muita gente chega aos 90 e aos 100 anos. Eles ganharam o nome de zonas azuis. A ideia é popular e vem cheia de dicas de hábitos. A ciência vê boas pistas, mas também encontra problemas. Entender os dois lados ajuda a separar o que é útil do que é exagero.
O que são as zonas azuis
O termo é usado para regiões com muitos moradores muito idosos. Em um artigo de 2016 na American Journal of Lifestyle Medicine, o escritor Dan Buettner e um colega listam cinco delas: Okinawa (Japão), Sardenha (Itália), Nicoya (Costa Rica), Icária (Grécia) e Loma Linda (Califórnia, Estados Unidos). O próprio texto informa que os dois autores trabalham na empresa Blue Zones.
Os hábitos que aparecem em comum
O artigo reúne nove traços de estilo de vida que os autores observaram nessas comunidades:
- movimento natural no dia a dia, sem depender de academia;
- sentido de propósito;
- rotinas para aliviar o estresse;
- parar de comer quando se sente cerca de 80% satisfeito;
- alimentação com predomínio de vegetais;
- consumo moderado de álcool, o que não deve ser visto como estímulo para beber;
- vida em uma comunidade de fé;
- família em primeiro lugar;
- um círculo de amigos que incentiva bons hábitos.
São hábitos simples, e muitos parecem sensatos. Mas a lista nasce de observação, não de experimento. Não dá para saber qual deles pesa mais, nem se funcionam do mesmo jeito fora desses lugares. O próprio artigo usa linguagem cautelosa: diz que se acredita que esses hábitos desacelerem o envelhecimento. E traz poucos detalhes sobre o método usado.
O que a ciência questiona
Uma revisão de escopo publicada na Aging and Disease reuniu 65 registros e identificou dez regiões descritas como zonas azuis. A conclusão é desigual:
- Okinawa, a região de Ogliastra (na Sardenha) e Nicoya estão bem caracterizadas por estudos demográficos e epidemiológicos.
- Icária e outras regiões ainda estão em investigação.
- Para Loma Linda, a revisão não encontrou estudos que confirmem a região como um foco de longevidade excepcional.
Os autores também apontam que as medidas de longevidade não foram calculadas pelo mesmo método em cada região. E que algumas zonas perderam a vantagem nas últimas décadas. Fatores como renda, ocupação e uso de serviços de saúde ainda foram pouco estudados.
Dúvidas sobre os registros de idade. Para ser uma zona azul, é preciso provar a idade, com certidões de nascimento corretas. Um pré-print do pesquisador Saul Justin Newman, de 2019, levanta dúvidas sobre isso. Pré-print é um texto divulgado antes da revisão por outros cientistas.
Segundo o resumo do trabalho, nos Estados Unidos o número de registros de pessoas com 110 anos ou mais caiu entre 69% e 82% quando os estados passaram a exigir certidão de nascimento. O autor também diz que Sardenha, Okinawa e Icária tinham renda e taxas de alfabetização menores e vida mais curta do que a média de seus países. Para ele, isso sugere que erros e fraudes nos registros têm papel importante.
Esse tipo de análise não prova que cada caso seja falso. Ainda precisa ser avaliado por outros especialistas. A revisão de escopo cita a crítica. Segundo ela, o pré-print aponta que essas regiões costumam ser remotas e de baixa renda, onde os dados nem sempre são confiáveis. A revisão lembra que reivindicações antigas de longevidade extrema, como a de Vilcabamba, no Equador, caíram depois por problemas parecidos.
O que vale para o brasileiro
Mesmo com as dúvidas sobre os números, vários hábitos da lista coincidem com recomendações oficiais, que têm base própria. Não são fórmula para chegar aos 100 anos. São orientações para a saúde em geral.
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, pede que a base da alimentação sejam alimentos in natura ou minimamente processados, em grande variedade e com predomínio de origem vegetal. Recomenda usar óleo, sal e açúcar em pequenas quantidades e evitar ultraprocessados, como biscoito recheado e macarrão instantâneo. O guia também incentiva comer em companhia, com família, amigos ou colegas.
Sobre o movimento, as diretrizes da OMS de 2020 indicam, para adultos, de 150 a 300 minutos por semana de atividade moderada, além de exercícios de força em dois dias ou mais. Para quem tem 65 anos ou mais, a orientação inclui atividades variadas, com equilíbrio e força, em três dias ou mais por semana. Reduzir o tempo sentado também é recomendado.
Quando procurar o médico
Antes de mudar a alimentação de forma radical, como cortar alimentos de origem animal, converse com médico ou nutricionista. O mesmo vale para começar atividade física intensa se você tem pressão alta, diabetes, problema no coração ou usa medicamentos. Dor no peito ou falta de ar durante o exercício pedem atendimento imediato.
Consultas e exames de rotina continuam sendo parte importante do envelhecimento saudável. Nenhum hábito de uma região famosa substitui esse acompanhamento.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de médico ou nutricionista.
Encontrou um erro ou tem uma sugestão de pauta? Fale com a redação.


