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Vitamina D: o que a ciência sabe sobre níveis baixos e exposição ao sol

Exame de sangue, sol e suplemento entram na mesma conversa, mas cada um tem limites. Veja o que dizem sociedades médicas e estudos de grande porte.

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Pessoas aproveitam os últimos raios de sol do dia na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro
Fim de tarde na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro — Imagem ilustrativaFoto: AHLN/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Resumo

  • Sociedades médicas brasileiras consideram deficiência um resultado abaixo de 20 ng/mL.
  • Em ensaio com 26 mil pessoas, o suplemento não reduziu câncer nem infarto em quem não tinha deficiência.
  • A OMS lembra que pouco sol ajuda a produzir vitamina D, mas o excesso aumenta o risco de câncer de pele.

Muita gente chega aos 50 anos com um exame de vitamina D na mão e uma dúvida: o resultado está baixo, preciso de sol, preciso de suplemento? A resposta não é igual para todos.

O que é a vitamina D e o que significa “nível baixo”

A vitamina D é produzida na pele quando ela recebe raios ultravioleta do sol. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma, em sua folha informativa sobre radiação ultravioleta, que pequenas quantidades dessa radiação são benéficas e têm papel essencial na produção da vitamina.

O exame de sangue mede a forma chamada 25(OH)D. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) publicaram em 2020 um posicionamento conjunto. Para a população em geral, os valores são:

  • de 20 a 60 ng/mL: considerados normais;
  • abaixo de 20 ng/mL: deficiência;
  • acima de 100 ng/mL: risco de intoxicação, que pode ser grave.

O mesmo documento diz que, em alguns grupos, manter o nível acima de 30 ng/mL pode trazer benefício. Entre eles estão pessoas com mais de 65 anos, gestantes, quem tem quedas repetidas, fraturas por fragilidade, osteoporose, doença renal crônica ou câncer.

Não há um único ponto de corte aceito por todos. O grupo americano que avalia serviços de prevenção (USPSTF) lembra, em sua recomendação de 2021, que nenhum valor único define a deficiência e que a precisão dos exames varia entre laboratórios.

O que as pesquisas dizem sobre suplementos

O estudo mais citado é o VITAL, publicado no New England Journal of Medicine em 2019. Foi um ensaio clínico randomizado, o tipo de pesquisa que melhor testa se uma intervenção funciona. Reuniu 25.871 adultos americanos, homens com 50 anos ou mais e mulheres com 55 ou mais, sem câncer nem doença cardiovascular no início. Metade recebeu vitamina D (2.000 UI por dia) e metade recebeu placebo, por cerca de cinco anos.

O resultado: houve 793 casos de câncer no grupo da vitamina D e 824 no grupo placebo, diferença sem significância estatística. Para infarto, AVC e morte cardiovascular, foram 396 contra 409 eventos, também sem diferença relevante. Há um limite importante: os participantes eram adultos sem deficiência conhecida. O estudo não diz que quem tem nível muito baixo dispense a reposição. Diz apenas que, nessas pessoas, o suplemento não reduziu esses desfechos no período.

Em 2024, a Endocrine Society, sociedade americana de endocrinologia, publicou uma diretriz sobre o uso de vitamina D por pessoas sem indicação estabelecida. Em resumo, ela:

  • sugere não usar, de rotina, quantidades acima das recomendadas para adultos de 50 a 74 anos (a referência citada é de 600 UI por dia dos 50 aos 70 anos e 800 UI por dia acima de 70, evidência de certeza moderada);
  • sugere suplementação empírica a partir dos 75 anos, pela possibilidade de menor mortalidade;
  • sugere não fazer o exame de sangue de rotina em pessoas sem indicação, e reconhece que as evidências têm muitas limitações.

A própria diretriz classifica essas orientações como sugestões, não como regras firmes. Sobre fraturas, o USPSTF recomenda contra doses baixas de vitamina D e cálcio em adultos sem problema conhecido e considera insuficiente a evidência para doses maiores, quando o objetivo é reduzir fraturas.

Sol: o que é exagero e o que é equilíbrio

Aqui há um conflito real. O sol ajuda a produzir vitamina D, mas a radiação ultravioleta é a principal causa de câncer de pele, segundo a OMS. A organização informa que, em 2020, foram diagnosticados mais de 1,5 milhão de casos no mundo, e que o excesso de radiação causou cerca de 1,2 milhão de novos casos de câncer de pele não melanoma. A organização recomenda proteção quando o índice UV chega a 3 ou mais, com sombra e roupas como melhores aliadas. Diz também que protetor solar não deve servir para ficar mais tempo no sol e que bronzeamento artificial nunca deve ser visto como forma de obter vitamina D.

A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) trata do assunto em comunicado oficial, de 2017. O texto reconhece que o filtro solar bloqueia bem a radiação UVB e que a pele protegida produz menos vitamina D. Recomenda expor áreas normalmente cobertas, como pernas e costas, de 5 a 10 minutos por dia, evitar o horário das 10h às 15h e usar roupas, chapéu e filtro nas áreas descobertas. Também orienta que a reposição oral, quando necessária, seja acompanhada por médico.

Um estudo promovido pela SBD com 95 voluntários não encontrou diferença significativa entre quem se expôs ao sol com filtro FPS 30 e quem se expôs sem filtro. É uma pesquisa pequena, avaliada em apenas 24 horas: serve como indício, não como prova.

Como encaixar no dia a dia

De forma geral, caminhar ao ar livre em horários mais amenos, com chapéu e roupas leves, combina com a orientação das sociedades citadas. Mas quem passa o dia dentro de casa ou tem alguma limitação para sair pode precisar de outra abordagem, definida com o médico. A OMS observa que quem tem exposição solar muito baixa, como pessoas acamadas ou que vivem em instituições, deve considerar a vitamina D por via oral.

Quanto ao suplemento, a quantidade certa para cada pessoa é definida pelo médico ou pelo nutricionista. A SBD alerta que níveis muito altos podem causar danos graves aos rins, e a SBEM e a SBPC/ML apontam risco de intoxicação acima de 100 ng/mL. Usar por conta própria não é uma escolha sem riscos.

Quando procurar o médico

Vale conversar com o médico se você:

  • tem mais de 65 anos e sofreu quedas ou fraturas;
  • recebeu diagnóstico de osteoporose ou de doença renal crônica;
  • tem pouca exposição ao sol por limitação de saúde ou moradia;
  • usa suplemento sem acompanhamento.

Leve o exame e a lista dos remédios que você usa.

Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de médico ou nutricionista.

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