ONU alerta que El Niño pode ser o mais forte em quatro décadas
Agência meteorológica da ONU prevê calor, seca e enchentes; relatório do Pnuma projeta aquecimento de 2,8 °C até 2100.

Resumo
- Celeste Saulo, da Organização Meteorológica Mundial, diz que o El Niño pode superar tudo o que se viu nas últimas quatro décadas.
- Relatório do Pnuma projeta aquecimento de 2,8 °C até 2100 com as políticas atuais.
- Guterres pede que os países não desistam de conter as emissões antes da COP31, na Turquia.
O El Niño pode ter uma intensidade sem precedentes e superar os padrões registrados nas últimas quatro décadas. O alerta foi feito nesta quarta-feira (21) pela secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, órgão das Nações Unidas dedicado ao tempo e ao clima.
O que o fenômeno pode provocar
Segundo Celeste Saulo, o El Niño deve levar ondas de calor a algumas regiões e bagunçar os padrões de chuva do planeta. O efeito varia conforme o lugar: onde a chuva diminui, o risco é de seca severa; em outras áreas, o fenômeno pode causar inundações. Ela não detalhou quais regiões seriam atingidas em cada caso.
O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico que altera a circulação da atmosfera e reorganiza o clima em vários continentes. No Brasil, o Amapá já decretou situação de emergência em todo o estado por causa da estiagem, como mostra a matéria sobre a emergência no Amapá.
Relatório do Pnuma
No mesmo dia, o braço ambiental da ONU, o Pnuma, publicou um relatório com projeções mais duras. O planeta deve esquentar mais do que se calculava antes, até no melhor cenário: a temperatura média ficaria de 1,7 °C a 1,8 °C acima da era pré-industrial por volta de 2050.
Com as políticas hoje em vigor, o documento projeta um aumento de 2,8 °C até 2100. Se os países cumprirem integralmente os compromissos já assumidos, o número cai para 2,6 °C. Os dois números superam os do ano passado. O relatório explica a diferença pela saída americana do Acordo de Paris e por uma revisão no cálculo das emissões do passado.
“Ultrapassar a meta não significa desistir. Ainda podemos manter esse aumento o menor e mais curto possível”
Apesar da expansão rápida das energias renováveis e de políticas climáticas que reduzem emissões em vários países, o Pnuma diz que ainda são necessários cortes “urgentes e rigorosos”. Tomando 2025 como base, a poluição que retém calor teria de recuar 18% em 2030, 45% em 2035 e 69% em 2040. As metas que os países têm hoje levariam a quedas de só 5% a 8% em 2030 e de 11% a 15% em 2035.
A meta de 1,5 °C
Em 2015, o Acordo de Paris estabeleceu como objetivo conter a alta da temperatura média bem abaixo de 2 °C, com preferência por 1,5 °C. Segundo o Pnuma, já não se considera viável segurar o aquecimento em 1,5 °C sem passar do teto, ou passando só um pouco.
O cenário novo do órgão, de estouro “o mais baixo possível”, dá cerca de 50% de chance de a temperatura recuar até 1,5 °C, ou menos, antes de 2100. As promessas climáticas feitas desde o ano passado mal alteraram as projeções, e a volta à meta exigiria retirar carbono da atmosfera em escala gigante, algo de viabilidade incerta, diz o documento.
Guterres e a COP31
A próxima conferência do clima, a COP31, será na Turquia, e os governos já se preparam para ela. Para o chefe da ONU, António Guterres, o mundo não pode abandonar a tarefa de segurar as emissões responsáveis por enchentes, incêndios e outras catástrofes. “Ultrapassar a meta não significa desistir. Ainda podemos manter esse aumento o menor e mais curto possível – e fazer com que as temperaturas voltem a ficar abaixo de 1,5 grau até o final do século”, afirmou.
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