Pular para o conteúdo

Itália nega extraditar Tagliaferro e vê 'envolvimento pessoal' de Moraes no caso

Corte de Apelação de Catanzaro diz que Moraes foi atingido pelas revelações e mesmo assim conduziu o caso; Tagliaferro pode deixar a Itália.

WhatsApp Facebook X Telegram
YouTube
Vídeo do canal Fato em Dia no YouTube

Resumo

  • A Corte de Apelação de Catanzaro negou o pedido brasileiro de extradição de Eduardo Tagliaferro.
  • Para a corte, Moraes foi atingido pelas revelações e conduziu o caso, o que põe a imparcialidade em dúvida.
  • Tagliaferro pode sair da Itália e terá os passaportes de volta; Moraes nega irregularidades.

A Justiça da Itália negou o pedido do Brasil para extraditar Eduardo Tagliaferro, que trabalhou com o ministro Alexandre de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante a eleição de 2022. A decisão, da Corte de Apelação de Catanzaro, foi divulgada nesta segunda-feira (26). Além de recusar a entrega, a corte derrubou a proibição de Tagliaferro deixar o país e mandou devolver os passaportes que estavam retidos.

O argumento central dos juízes é a participação do próprio Moraes no caso. Segundo trechos da decisão, o ministro foi atingido pessoalmente pelas revelações feitas pelo ex-assessor e, mesmo assim, foi o relator do processo, dirigiu a investigação, avaliou os resultados e impôs medidas restritivas contra ele. Para a corte, isso cria uma “dúvida objetiva” sobre a imparcialidade, e o fato de as decisões terem sido tomadas por um colegiado não afasta essa dúvida.

Quem é Tagliaferro e do que ele é acusado

Perito, Tagliaferro foi contratado por Moraes para a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED), setor que funcionou no TSE na eleição de 2022. Em agosto de 2024, vieram a público mensagens trocadas por integrantes do gabinete do ministro sobre relatórios produzidos por esse setor. A Polícia Federal (PF) investigou Tagliaferro pelo vazamento. Ele tem cidadania italiana, deixou o Brasil dizendo-se perseguido e mora em Torano Castello, na Calábria, região que fica sob a jurisdição da corte de Catanzaro.

Em novembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou por unanimidade a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), com Moraes como relator, e tornou Tagliaferro réu por quatro crimes: violação de sigilo funcional, coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Para a PGR, ele divulgou informações sigilosas para desacreditar investigações e favorecer uma organização criminosa. Em setembro de 2025, por videoconferência, ele acusou o ministro de fraude processual em depoimento à Comissão de Segurança Pública do Senado.

Do pedido à negativa

  • Agosto de 2025: Moraes determina o pedido de extradição, que o governo brasileiro encaminha à Itália.
  • 1º de outubro de 2025: por ordem da corte de Catanzaro, a polícia italiana aborda Tagliaferro e o notifica do pedido; ele é liberado no mesmo dia, mas fica proibido de sair do país.
  • Novembro de 2025: a Primeira Turma do STF torna Tagliaferro réu.
  • Outubro de 2026: a corte italiana nega a extradição e revoga as restrições.

O que diz o tratado entre os dois países

A extradição entre Brasil e Itália segue um tratado assinado em Roma em 1989, em vigor no Brasil pelo Decreto nº 863, de 1993. O artigo 5º proíbe a entrega quando a pessoa foi ou será submetida a “um procedimento que não assegure os direitos mínimos de defesa”, base que, segundo a decisão, sustenta a negativa. O artigo 3º também veda a extradição por crime considerado político pelo país que recebe o pedido, e a corte classificou assim uma das acusações, a de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

“É indiscutível seu envolvimento pessoal como sujeito diretamente atingido pelas revelações.”

Trecho da decisão da Corte de Apelação de Catanzaro, sobre Moraes

Há ainda um terceiro ponto que pesa a favor de quem tem dupla cidadania: pelo artigo 6º, o país não é obrigado a entregar os próprios cidadãos, embora possa fazê-lo. O caso mais conhecido é o de Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil condenado no mensalão: mesmo com cidadania italiana, ele foi extraditado em 2015, depois de quase dois anos de disputa na Justiça da Itália.

As reações

O advogado de Tagliaferro, Eduardo Kuntz, elogiou a independência da corte italiana, que, segundo ele, não cedeu a “infundadas alegações” de Moraes e reconheceu o cliente como vítima de perseguição política. Kuntz confirmou que todas as medidas cautelares foram revogadas e que os passaportes serão devolvidos. Moraes nega irregularidades e sustenta que os procedimentos foram regulares; o gabinete do ministro já havia afirmado que todos os atos do caso constam dos processos.

O que acontece agora

A decisão ainda pode ser contestada. Na Itália, o recurso contra decisões das cortes de apelação sobre extradição vai para a Corte de Cassação, em Roma. No Brasil, a ação penal no STF continua aberta: Tagliaferro segue réu, mas, sem a entrega, o processo corre com ele fora do país.

Eduardo Tagliaferro, de camisa branca e gravata escura, fala por videoconferência diante de uma parede claraO ministro Alexandre de Moraes, de toga, sentado na bancada do plenário do Supremo
Foto de arquivo: Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Moraes no TSE, e o ministro Alexandre de MoraesFotos: Reprodução/TV Senado (à esq.) e Rosinei Coutinho/STF (à dir.)

Eduardo TagliaferroAlexandre de MoraesExtradiçãoItáliaSTFTSECaso TagliaferroPolícia Federal

Siga o Fato em Dia YouTube Instagram TikTok

Encontrou um erro ou tem uma sugestão de pauta? Fale com a redação.

Mais sobre o assunto

Últimas de Política

Ver tudo