Brasil cai do 28º ao 62º lugar em ranking global de crescimento industrial
Análise do Iedi com dados da ONU mostra a indústria de transformação crescendo 0,84% em 12 meses, ante 7,6% no mundo; juros altos pesam.

Resumo
- O Brasil caiu do 28º lugar, em 2024, para o 62º no ranking de crescimento da indústria, segundo o Iedi com dados da ONU.
- Em 12 meses, a indústria de transformação brasileira cresceu 0,84%; a mundial, 7,6%.
- Bens de capital e bens duráveis, os que mais dependem de crédito, são os ramos mais atingidos pela Selic alta.
A indústria brasileira perdeu 34 posições, em dois anos, no ranking mundial de crescimento da produção: no segundo trimestre de 2024, o país era o 28º; no segundo trimestre deste ano, aparece em 62º. A conclusão é de uma análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), que usa dados da Unido, a organização da ONU para o desenvolvimento industrial, e foi divulgada neste domingo (25).
O que o ranking mostra
Na comparação entre o segundo trimestre de 2026 e o mesmo período de 2025, a indústria de transformação do mundo cresceu 7,6%. A brasileira avançou 0,84%. Em conta simples, o ritmo mundial foi cerca de nove vezes o do Brasil (7,6 dividido por 0,84 dá 9,05).
O pior momento do país na lista foi o fim de 2025, quando chegou ao 75º lugar. A recuperação posterior, até a 62ª posição, é atribuída pelo economista-chefe do Iedi, Rafael Cagnin, a dois fatores: uma base de comparação fraca no ano passado e a queda recente dos juros.
O peso dos juros
O Iedi relaciona o tombo à Selic. A taxa básica começou a subir em setembro de 2024, quando estava em 10,50% ao ano, e chegou a 15% em junho de 2025, patamar mantido até o início deste ano. Num ciclo de queda desde março, está hoje em 13,75% ao ano, conforme a série de meta da Selic do Banco Central.
Cagnin afirmou que a indústria é especialmente sensível ao juro porque fabrica bens duráveis, cuja demanda depende do patamar da taxa, e porque precisa de crédito para investir. “Para investir em bens de capital, as empresas precisam ter um retorno de no mínimo os juros básicos, porque senão vale mais a pena aplicar em títulos públicos”, disse.
Quais ramos sofrem mais
Os dados mais recentes da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, analisados pelo Iedi em carta de 19 de outubro, mostram um quadro fraco em agosto:
- a produção industrial caiu 0,6% sobre julho, já descontados os efeitos sazonais;
- na comparação com agosto de 2025, a queda foi de 1,2%;
- no acumulado de 2026 até agosto, há alta de 0,8%, e a taxa em 12 meses está em +0,6%;
- a produção de bens de capital, como máquinas e equipamentos, ficou 4,1% abaixo da de agosto do ano passado;
- bens de consumo semi e não duráveis recuaram 4,5% na mesma comparação.
Segundo o Iedi, a produção de bens de capital praticamente não cresce desde o fim do primeiro trimestre de 2025. Em julho e agosto, os bens de capital para a agricultura despencaram 34,6% sobre o mesmo período de 2025.
Onde o mundo cresce e o Brasil não
Quem puxou o desempenho mundial foram os ramos de tecnologia mais avançada, ligados a computação e à mudança da matriz de energia: eles somaram alta de 2% no trimestre. Entre eles, outros equipamentos de transporte avançaram 3,8% e computadores e eletrônicos, 3,4%, segundo os dados da Unido citados pelo Iedi.
No Brasil, o resultado do segundo trimestre foi puxado por poucos ramos. Em carta de 21 de setembro, o Iedi mostrou que a indústria de transformação voltou ao positivo (+0,7% sobre o mesmo trimestre de 2025) depois de quatro quedas anuais seguidas, mas com forte concentração: veículos aceleraram de 2,2% para 8,2%, e derivados de petróleo e biocombustíveis subiram 6,2%. Máquinas e equipamentos (-6,3%) e produtos químicos (-2,6%) seguiram no vermelho.
O economista Sergio Vale, da MB Associados, aponta ainda problemas estruturais: custo elevado em praticamente todos os itens da produção, do trabalhista à energia, e uma economia entre as mais fechadas do mundo, o que deixa o país à margem das grandes redes internacionais de produção. Ele cita ainda a presença crescente da China na pauta de importações industriais.
O que isso significa para o leitor
A queda da Selic, ainda que lenta, tende a aliviar o custo do crédito para empresas e consumidores, e foi um dos fatores que fizeram o Brasil recuperar algumas posições desde o fim de 2025. Os ramos que dependem de financiamento, como máquinas e bens duráveis, são os que mais sentem o juro alto e os últimos a reagir quando ele cede.
Os dados de produção do IBGE e a série da Selic são públicos e podem ser conferidos nas páginas dos órgãos.
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