Debate da Globo: Flávio pede desculpas por "nove dedos", Lula o chama de "miliciano"; veja as promessas
No último confronto antes do 2º turno, os dois prometeram mínimo e aposentadorias acima da inflação e brigaram por obras, dívidas, SUS, bets e segurança; checagem apontou falas falsas e exageradas.

Resumo
- Flávio e Lula fizeram na sexta (23), na TV Globo, o último debate antes da votação de domingo (25).
- Os dois prometeram mínimo acima da inflação e brigaram por obras, dívidas, SUS, bets e crime.
- Flávio pediu desculpas por “nove dedos”; Lula o chamou de “miliciano”. Checagem apontou vídeo editado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT), candidato à reeleição, fizeram na noite desta sexta-feira (23) o último debate antes do segundo turno, marcado para domingo (25). O encontro na TV Globo, mediado por César Tralli, teve propostas sobre salário mínimo, dívidas, saúde, educação e segurança, mas foi marcado pelas ofensas: Flávio chamou Lula de “nove dedos” e depois pediu desculpas; Lula chamou o adversário de “miliciano”.
Os dois chegaram acompanhados de aliados. Flávio levou governadores eleitos e reeleitos, como Tarcísio de Freitas (SP), Sergio Moro (PR), Luciano Zucco (RS) e Douglas Ruas (RJ). Lula levou a primeira-dama Janja, ministros e Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina Ana Clara, morta por uma bala perdida em Niterói em 2021, caso que voltou ao debate no terceiro bloco.
O momento mais tenso: “nove dedos” e “miliciano”
Ao falar da proposta de tarifa zero nos ônibus aos fins de semana, Flávio disse que não adianta o salário mínimo estar em R$ 1.621 se o governo “dá com uma mão e tira com os nove dedos”, referência ao dedo que Lula perdeu. No bloco seguinte, o presidente respondeu que perdeu o dedo num acidente de trabalho aos 17 anos: “Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos.”
Flávio recuou: “Lula, se eu ofendi, eu te peço desculpas, não queria te ofender”. Em seguida, perguntou se o presidente também pediria desculpas pelo endividamento, pelo preço da comida e pelo aumento da violência contra mulheres. Os dois ganharam direito de resposta e usaram o tempo para outros assuntos: Flávio falou de proteção animal, e Lula disse que “quem tem que pedir desculpa ao Brasil é a elite brasileira”.
1º bloco: as regiões do país
- Obras (abertura): Flávio citou relatório do TCU com mais de 11.500 obras paradas e disse que o país virou “um grande cemitério de obras”; prometeu ferrovias e concluir a Transnordestina. Lula disse que nunca se investiu tanto em infraestrutura, que herdou 6 mil obras paradas e listou a BR-319, a Transnordestina, a Fiol e a Fico.
- Sudeste: Lula afirmou que, sem a política de valorização do PT, o mínimo seria de R$ 900. Flávio culpou os juros e a dívida pelo custo de vida, disse ser a favor da tarifa zero nos fins de semana e criticou a reforma tributária.
- Centro-Oeste: Flávio disse que o produtor rural enfrenta burocracia e juro real perto de 20% e prometeu proteger o Plano Safra e o seguro rural de cortes. Lula citou 700 novos mercados abertos e disse que não se preocupou quando o adversário “ficou lambendo o Trump” na época das tarifas americanas.
- Sul: perguntado por Lula, Flávio prometeu reajustar as aposentadorias acima da inflação e acusou o governo de entregar menos de 30% do prometido ao Rio Grande do Sul depois das enchentes de 2024.
- Norte: Flávio cobrou o voto do PT contra o marco do saneamento. Lula disse que o adversário “não conhece o Brasil” e lembrou a crise de oxigênio em Manaus; Flávio retrucou perguntando se quem governa é Lula “ou o Google”.
- Nordeste: Lula listou institutos federais, hospitais e indústria e perguntou o que o governo anterior fez na região. Flávio disse que será “o carioca mais nordestino” do país e culpou o governo pelo avanço do Comando Vermelho.
2º bloco: licença-maternidade, dívida pública e SUS
Lula perguntou por que Flávio, como deputado estadual no Rio, votou contra ampliar a licença-maternidade para 180 dias. “Eu estava errado”, admitiu o senador, que disse ter mudado de ideia depois de ter duas filhas. Lula respondeu que ele não votou a favor quando teve a chance e cobrou o termo “bolsa farelo”, usado por Flávio sobre o Bolsa Família.
“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos.”
Na dívida pública, Flávio defendeu a autonomia do Banco Central e prometeu comprar as dívidas da população nos bancos e refinanciá-las pela Caixa, que chamou de “Banco da Prosperidade”, com seis meses sem pagamento para pessoas físicas e um ano para empresas. Lula disse que a ideia copia a medida que o governo mandou ao Senado, com leilões de dívidas e descontos de até 95%.
Sobre o SUS, Lula perguntou como o adversário vai melhorar a saúde com o corte de gastos que chamou de “tesouraço”. Flávio criticou as filas e a falta de remédios, disse que os cortes seriam na corrupção e na burocracia e, cobrado de novo, afirmou: “Eu vou investir no SUS, sim”.
3º bloco: dívidas das famílias, bets, escola integral e crime
- Endividamento: “O brasileiro antes parcelava um fogão, uma geladeira, agora parcela o que está dentro da geladeira”, disse Flávio. Lula citou um leilão para comprar dívidas dos bancos que pode passar de R$ 150 bilhões.
- Bets: Flávio chamou Lula de “pai do Tigrinho” e disse que a proibição das apostas on-line foi eleitoral. Lula respondeu que as bets foram liberadas no governo de Jair Bolsonaro.
- Ensino integral: Lula prometeu escola em tempo integral em todo o país até o ensino médio e estender o Pé-de-Meia a universitários. Flávio disse que o governo zerou a verba da área, prometeu manter o Pé-de-Meia, criar um vale-creche e oferecer cursos de tecnologia.
- Segurança: Lula perguntou por que Flávio defendeu, como advogado, o policial acusado de matar Ana Clara. O senador prestou solidariedade à mãe da menina, disse acreditar que o disparo não foi do policial, que ainda não foi julgado, e prometeu classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, reduzir a maioridade penal para 16 anos e adotar castração química para condenados por estupro. Lula acusou o adversário de proximidade com milicianos, defendeu a PEC da Segurança e prometeu criar um ministério só para a área.
4º bloco: tema livre
No bloco de tema livre, com oito minutos para cada um, Lula abriu perguntando sobre a ilha comprada pelo atacante Richarlison que acabou titulada em nome de um advogado amigo de Flávio. O senador respondeu que a Justiça já decidiu o caso, que “essa ilha nunca foi do Richarlison” e que o advogado é seu amigo, e não sócio. Em seguida, acusou Lula de querer “acabar com a polícia”.
O que a checagem encontrou
O Fato ou Fake, serviço de checagem do Grupo Globo, verificou falas dos dois durante a madrugada. Alguns resultados:
| Quem | O que disse | Resultado |
|---|---|---|
| Flávio | Vídeo postado no seu Instagram mostraria que Jair Bolsonaro não debochou de quem morria sem ar; “não tinha vacina” | Falso: o vídeo foi editado, com 30 segundos cortados, e a vacinação já tinha começado em janeiro de 2021 |
| Flávio | O governo Bolsonaro recebeu cerca de 14 mil obras inacabadas e entregou pouco mais de 8 mil | Verdadeiro: eram 14.403 em 2019 e 8.674 em agosto de 2022, segundo o TCU |
| Flávio | Bolsonaro deu R$ 600 do Bolsa Família | Não é bem assim: o valor chegou a R$ 600 em 2022 por decisão do Congresso |
| Flávio | O PT votou contra o marco do saneamento | Verdadeiro |
| Flávio | Bolsonaro concluiu a transposição do São Francisco | Não é bem assim: a obra tem várias etapas, feitas em diferentes governos |
| Lula | Herdou cerca de 6 mil obras paradas | Verdadeiro: o TCU contava 8.603 obras paralisadas em abril de 2023 |
| Lula | “Acabei com a fome em 2012” | Não é bem assim: o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, no governo Dilma |
| Lula | Voltou em 2023 com 33 milhões passando fome | Verdadeiro: dado de pesquisa de 2022 |
Depois do debate
Em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, Lula afirmou que rever a independência do Banco Central não está entre as prioridades de um novo mandato: “Eu quero que o Banco Central baixe os juros”. Elogiou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e acusou o adversário de mentir “descaradamente”.
Flávio, entrevistado em seguida, prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029, com as Forças Armadas no combate aos crimes na Amazônia, e disse que Ibama e ICMBio “não estão sendo efetivos” e têm “travas ideológicas”.
E agora
O segundo turno é neste domingo (25), das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. As pesquisas divulgadas nesta sexta mostram disputa apertada, com os dois candidatos dentro ou perto da margem de erro.
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