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Risco-país da Argentina volta a superar 700 pontos e chega ao pico de um ano

Juros nos EUA, dólar forte e remessas de lucros pesam; vencimentos de dívida de 2027 passam de US$ 30 bilhões.

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Javier Milei, de terno preto e gravata azul-clara, posa ao lado de outro homem de terno, entre bandeiras na Casa Rosada
Foto de arquivo: O presidente argentino, Javier Milei, à direita, durante encontro na Casa RosadaFoto: Presidência da Argentina (CC BY 4.0)

Resumo

  • O risco-país argentino voltou a superar 700 pontos nesta semana, o patamar mais alto em cerca de um ano.
  • Em 2027, ano de eleição, a Argentina terá mais de US$ 30 bilhões a pagar em principal e juros, segundo o FMI.
  • Analistas veem alta de juros nos EUA, remessas de lucros e revisão de expectativas sobre a economia.

O risco-país da Argentina voltou a ultrapassar os 700 pontos nesta semana e chegou ao nível mais alto em cerca de um ano. O indicador, que mede o prêmio extra exigido pelos investidores para financiar o país, sozinho diz pouco sobre o momento. Por trás dele, há uma combinação de pressões vindas de fora, ajustes técnicos do mercado e uma conversa que tende a crescer nos próximos meses: em que condições o governo de Javier Milei entrará em 2027, quando haverá eleição para presidente e uma fila grande de pagamentos de dívida em moeda estrangeira.

A conta de 2027

Segundo levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Argentina terá mais de US$ 30 bilhões a pagar no próximo ano entre principal e juros, somando credores privados e organismos internacionais. O valor não representa um problema imediato. As reservas internacionais estão um pouco acima de US$ 50 bilhões, uma parte dos compromissos pode ser rolada e outra é devida ao próprio FMI. Por isso, a alta recente do risco-país não se explica apenas por essa conta.

O que empurrou o indicador

Para Daniel Marcatto, sócio e analista da Exploritas, uma parcela importante da piora veio de fora. O aumento nos juros dos títulos do Tesouro americano e a valorização do dólar pressionaram os mercados emergentes, e os ativos argentinos costumam reagir com mais força. “O crédito argentino tem um beta muito elevado”, afirma. Na prática, quando o cenário global piora para emergentes, os papéis do país caem mais; quando melhora, sobem mais.

Outubro também é um mês historicamente menos favorável. Fundos americanos costumam reequilibrar as carteiras antes do início do novo ano fiscal, em novembro, e o período de dezembro a abril costuma ser melhor para papéis de emergentes.

Há ainda um fator local. Depois que foi liberado de novo o envio de dividendos para fora, empresas argentinas começaram a se desfazer de títulos soberanos para fazer caixa. O fim da restrição tirou do mercado um comprador relevante: tesourarias que antes poderiam comprar esses papéis agora fazem o oposto. Marcatto calcula que mais de US$ 4 bilhões já tenham saído do país nesse processo e que o montante pode chegar a algo entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões até o fim do ano.

Expectativas mais modestas

Os fatores técnicos explicam a velocidade do movimento, mas há também uma mudança na maneira como os investidores enxergam a economia argentina. Fabio Giambiagi, pesquisador do FGV Ibre, avalia que o mercado exagerou no otimismo. “O mercado fez uma aposta na Argentina que estava ‘comprando lotes na Lua’. Era delirante”, diz.

Os números mostram a mudança. No começo de 2025, o levantamento de expectativas do Banco Central argentino, o REM, previa crescimento perto de 3,7% do PIB em 2026 e inflação de cerca de 15% neste ano. No REM mais recente, a projeção de crescimento é de apenas 1,5%, e a inflação esperada para dezembro chegou a 30%.

Política no radar

A eleição presidencial só acontece em 2027, mas já pesa a dúvida sobre se Milei conseguirá preservar o apoio político e manter o programa econômico de pé. Giambiagi afirma que os investidores subestimaram as dificuldades do governo no Congresso e os efeitos do estilo do presidente na construção de alianças. Segundo o pesquisador, a popularidade de Milei caiu em relação ao início da gestão, e um eventual segundo turno pode ser difícil se a oposição conseguir reunir o voto contrário ao presidente.

Nesta semana, durante viagem à Espanha, Milei chamou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, de “ditador inapresentável”, pouco mais de um mês antes das eleições na Espanha. O Ministério das Relações Exteriores espanhol rebateu: disse não admitir ingerência de outros países e chamou a conduta do argentino de “indigna”. Para Giambiagi, falta ao presidente a postura de quem, numa república, “faz política”.

O saldo até aqui

O país chega a 2027 em situação bem diferente da encontrada por Milei ao assumir: os preços sobem bem menos, as contas públicas estão em melhor estado, o caixa em dólares é maior e o comércio exterior ficou mais favorável. Em contrapartida, o mercado agora examina se o governo tem força política para sustentar o plano. “O mercado aos poucos está percebendo que não é uma festa”, resume Giambiagi.

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