Chile tem desemprego recorde de 9,6% e Kast enfrenta desaprovação acima de 60%
Austeridade, alta dos combustíveis e queda da mineração travam a economia; o governo aposta em reforma tributária e plano de vagas.

Resumo
- O desemprego no Chile chegou a 9,6%, o maior nível em mais de cinco anos, e o PIB recuou nos dois primeiros trimestres.
- O governo de José Antonio Kast corta gastos, tem desaprovação acima de 60% e viu os combustíveis dispararem após a guerra no Irã.
- A aposta é uma reforma que reduz o imposto das empresas de 27% para cerca de 23% e um plano para criar mais de 100 mil vagas.
A economia do Chile perdeu força em 2026 e o presidente José Antonio Kast, de direita radical, passou a enfrentar desaprovação superior a 60%, segundo pesquisas locais. O desemprego chegou a 9,6%, o maior nível em mais de cinco anos, os investimentos estacionaram e os consumidores estão mais pessimistas, num cenário de ajuste fiscal duro conduzido pelo governo.
Kast assumiu em março com a promessa de reativar o emprego e o investimento. Os indicadores do segundo trimestre foram fracos: o investimento produtivo, público e privado, não cresceu, principalmente por causa da queda da construção civil, e a demanda interna ficou praticamente estagnada. O PIB recuou 0,5% no primeiro trimestre e 0,2% no segundo, na comparação com os mesmos períodos de 2025, a maior retração da economia chilena desde a pandemia.
Combustíveis e cobre
Kast chegou ao cargo na época em que começou a guerra no Irã, conflito que encareceu o petróleo no mundo todo. O país compra no exterior praticamente todo o petróleo de que precisa, e Kast optou por não intervir: os combustíveis passaram a seguir o mercado. O episódio ficou conhecido como “bencinazo” e provocou protestos. Segundo o cálculo feito na Região Metropolitana de Santiago, a gasolina ficou cerca de 30% mais cara e o diesel, mais de 40%, desde os dias anteriores à guerra até meados de outubro.
Para o economista Nicolás Saldías, da Economist Intelligence Unit, a decisão se explica pelo custo fiscal de compensar a alta dos preços, que ameaçava os esforços do governo para reduzir o déficit. O custo político, diz ele, foi alto: a popularidade de Kast caiu rápido e não se recuperou. Joan Domene, da Oxford Economics, avalia que a medida abalou a confiança dos consumidores.
O custo de vida em 12 meses subiu a 4,1% em julho. A mineração, principal setor exportador do país, líder mundial em exportação de cobre, recuou 17,4% em agosto, o pior nível em três décadas. As vendas dos supermercados caíram 1,2% em 12 meses até agosto, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas.
O que o governo fez
A austeridade começou por um corte de 3% no orçamento de cada ministério, a redução ou o fechamento de programas que o governo considera ineficientes e menos investimento público direto. Saldías afirma que essa política também freia o crescimento, porque a redução de gastos diminui a demanda.
O governo também aprovou no Congresso e Kast sancionou, no início de outubro, a chamada “megarreforma”. O pacote baixa aos poucos a alíquota paga pelas empresas, hoje de 27%, para algo próximo de 23%, e assegura regras tributárias estáveis por muito tempo para os grandes projetos. Há dúvida sobre se o corte de impostos vai gerar crescimento e emprego suficientes para compensar a queda de arrecadação.
Há algumas semanas, o governo anunciou ainda um plano de emprego, com a meta de criar mais de 100 mil vagas entre 2026 e 2027, por meio de obras públicas aceleradas e subsídios para contratações. A medida não fazia parte da linha de austeridade do início do mandato.
Em um encontro com empresários cristãos, no início de outubro, o ministro da Fazenda, Jaime Quiroz, pediu que não houvesse pessimismo: “Não percam a calma, nem se desesperem”.
E agora
O Congresso discute o Orçamento de 2027, que prevê crescimento real de apenas 1,5% nos gastos públicos, meta considerada austera em comparação com governos anteriores. A oposição afirma que a proposta atinge dezenas de programas sociais; o governo diz que esses programas não cumprem seus objetivos.
Os economistas ouvidos apontam possível melhora em 2027. Domene vê uma reversão de parte dos fatores de incerteza, e, se o preço global da energia ceder um pouco e não surgirem novos choques, a recuperação poderia começar já no primeiro trimestre do próximo ano. Felipe Hernández, da Bloomberg Intelligence, diz que, se as reformas forem implementadas e funcionarem como o governo e as empresas esperam, efeitos positivos podem aparecer na economia no ano que vem.
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