Brasil tem 61 casos de sarampo em 2026; médicos alertam para onda antivacina nos EUA
País segue certificado como livre da doença, mas vigilância custa caro; cobertura da 2ª dose da tríplice viral é de 80%.

Resumo
- O Brasil registrou 61 casos de sarampo em 2026, a maioria importada, e continua certificado como área livre da doença.
- O Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Imunizações dizem que o discurso antivacina nos EUA pressiona o país.
- A cobertura da 1ª dose da tríplice viral é de 95% e a da 2ª, de 80%, segundo dados preliminares do ano.
O Brasil confirmou 61 casos de sarampo em 2026, a maioria com origem em outros países, e segue com o certificado de território livre da doença. A manutenção desse selo, porém, exige esforço, e o aumento de casos no continente americano preocupa o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), que apontam o discurso contra vacinas nos Estados Unidos como um dos fatores.
O diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Eder Gatti, afirma que os americanos vivem um período de retrocesso que ameaça todo o continente. “O governo americano, além de chancelar discursos negacionistas, tem um secretário de Saúde, que é o equivalente ao nosso ministro, declaradamente antivacina”, diz. Para ele, a explosão de casos por lá está muito ligada a essa narrativa, já que a vacina contra o sarampo “é uma vacina de bloqueio”: quem a toma não pega nem transmite o vírus.
O que o Brasil já passou
O país conquistou o certificado de eliminação em 2016 e o perdeu em 2019, depois que a doença voltou pela região Norte e se espalhou, com um surto de 19 mil casos em São Paulo. O título foi recuperado em 2024, e desde então não há transmissão sustentada em território nacional.
A cobertura vacinal ajudou nessa virada. Em 2023, a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, chegou a 88% das crianças na primeira dose e a 66% na segunda. Em 2024, os índices subiram para 96% e 78%. Neste ano, os dados preliminares apontam 95% e 80%. A meta é manter 95% de cobertura de forma permanente, e não apenas em momentos de risco.
Como os EUA mexeram nas vacinas
Em agosto, a lista de vacinas indicadas pelo governo americano a todas as crianças caiu de 17 para 11. O presidente Donald Trump também determinou que a tríplice viral seja dividida em três imunizantes, aplicados em momentos diferentes. Segundo o diretor da SBIm, Juarez Cunha, as mudanças têm motivação política e não têm base científica. As versões separadas de cada vacina deixaram de ser produzidas há quase 20 anos, o que torna a ideia inviável.
Trump justificou o fracionamento dizendo que ele reduziria casos de autismo, mas diversos estudos já descartaram qualquer ligação entre vacinas e esse transtorno. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), os casos de sarampo nas Américas passam de 56 mil, com ao menos 80 mortes.
Reflexos por aqui
Embora o Brasil não tenha copiado nenhuma das medidas americanas, Cunha avalia que elas repercutem na população, principalmente pelas redes sociais. Outra decisão dos EUA, a de deixar de recomendar a vacina da hepatite B ao nascer para todos os bebês, já tem efeitos: em maternidades particulares, há pais que não autorizam a aplicação. Segundo o médico, em crianças a chance de a infecção virar doença crônica é de 90%, o inverso do que ocorre em adultos.
Vigilância custa caro
Cada suspeita de sarampo aciona as autoridades sanitárias, que confirmam o caso, isolam o doente e monitoram quem teve contato com ele. Também se faz um bloqueio vacinal, com reforço da imunização na comunidade. Só em São Paulo, onde está a maior parte dos casos, foram aplicadas quase 4 milhões de doses extras este ano. No Amazonas, que teve 17 casos entre setembro e outubro, foram quase 192 mil.
“Muitas vezes, a vacina é vítima do próprio sucesso. Ela diminui tanto a doença, que as pessoas acham que não precisam mais se vacinar”, disse Cunha, ao alertar para a falsa sensação de segurança.
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