Sete em cada dez refugiados de mutirão de emprego em SP estão sem trabalho
Ação no centro da capital reuniu inscritos de 23 países; mais da metade quer abrir o próprio negócio no Brasil.

De cada dez refugiados e migrantes que foram neste sábado (17) a um mutirão de emprego no centro de São Paulo, sete estavam desempregados. O dado foi apresentado pela organização da ação Conexões que Transformam, que passou o dia oferecendo vagas, oficinas e ajuda com documentos na Aliança Brasil Cidadã.
Além do desemprego alto, a organização percebeu outra tendência entre os participantes: mais da metade disse que pretende abrir um negócio no Brasil. A iniciativa foi do Grupo Mulheres do Brasil, em parceria com a Konecta Brasil e a Konecta Foundation.
Quem participou
Além de um casal venezuelano, outros 136 estrangeiros se inscreveram, vindos de 23 países, principalmente Venezuela, Congo e Haiti. Durante o dia, puderam participar de oficinas sobre empregabilidade e empreendedorismo, ter o currículo revisado e traduzido para o português, receber orientação sobre documentação e se candidatar a vagas abertas.
Maria Helena Santuche, responsável no Grupo Mulheres do Brasil pelo comitê que cuida da inserção de refugiados e migrantes, explicou o perfil de quem quer empreender. “A maior parte dessas pessoas quer empreender, mas elas não têm muita ideia ainda [em como fazer isso], porque justamente esse é um empreendedorismo por necessidade, não por oportunidade”, disse.
Esse é o caso do venezuelano Victor Arce, de 65 anos. Marceneiro em seu país, ele está no Brasil há um ano com a mulher, Morelba Margarida Aquilar, de 64, e a filha. A família trocou de país porque Morelba precisava de tratamento médico, e hoje vive da venda de artesanato enquanto procura trabalho. “Estou buscando maneiras de empreender, de abrir uma microempresa”, afirmou Victor.
Diploma que não vale aqui
Para Eliane Franco Figueiredo, cofundadora do grupo, muitos estrangeiros chegam com formação, mas não conseguem atuar na área. “A gente tem médicos aqui, por exemplo, que não podem exercer sua profissão aqui [no Brasil] porque a validação de diploma demora muito”, relatou.
Flavio Simonato, que dirige a área de Pessoas na Konecta Brasil, disse que a meta é deixar os participantes prontos para disputar uma vaga, com currículo atualizado e papéis em ordem. Segundo ele, também houve palestras sobre o funcionamento do mercado de trabalho brasileiro e doação de cestas básicas e brinquedos para as crianças.
Mais de 1 milhão no país
De acordo com Vivian Holzhacker, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), o Brasil abriga hoje mais de 1 milhão de refugiados ou pessoas que precisam de proteção internacional, de mais de 160 nacionalidades. Venezuela, Cuba e Haiti lideram a lista, mas São Paulo tem recebido também um número relevante de afegãos, iranianos, sírios e palestinos.
Ela apontou o idioma como o primeiro obstáculo e a pressa para conseguir renda como o segundo, já que muitos chegam sem moradia nem rede de apoio. “Muitas vezes as pessoas têm diploma de nível superior, mas acabam trabalhando no emprego que aparece”, afirmou. Quem foge às pressas de guerra ou perseguição também costuma chegar sem todos os documentos, ou sem tempo de traduzi-los.
Onde buscar ajuda
Quem não foi ao mutirão tem outros caminhos. O Acnur mantém a plataforma Help, em que é possível escolher estado e município para encontrar organizações que ajudam com documentação, trabalho e renda. A Aliança Brasil Cidadã oferece cursos gratuitos durante todo o ano, entre eles informática, inteligência artificial e manicure, segundo a vice-presidente da entidade, Sidnea Evangelista. As redes sociais do Grupo Mulheres do Brasil e da Konecta Brasil também divulgam novas oportunidades.
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