Pular para o conteúdo
Seu bolso

Estudo da USP: sem ganho real nos benefícios, renda no interior cairia até 10,8%

Pesquisa do Made-USP mostra como aposentadorias, BPC e Bolsa Família sustentam o comércio em cerca de 4 mil cidades fora das metrópoles.

WhatsApp Telegram Facebook X
Cartão do Programa Bolsa Família erguido diante de uma criança desfocada
Foto de arquivo: Cartão do Programa Bolsa Família — Imagem ilustrativaFoto: Lyon Santos/MDS

O que acontece com a economia de uma cidade pequena quando aposentadorias e benefícios deixam de subir acima da inflação? Uma pesquisa do Made, núcleo da FEA-USP que estuda macroeconomia e desigualdade, tentou responder, e a conclusão é que a renda local encolheria muito. O estudo foi divulgado nesta semana.

Cidades que dependem das transferências

O Brasil tem 5.569 municípios, e perto de 4 mil estão fora de regiões metropolitanas. Ali, as transferências do governo pesam duas vezes mais na renda do que nas grandes cidades. No Ceará, por exemplo, benefícios sociais e previdenciários são 22% da renda agregada de Fortaleza e arredores, e 40% no interior.

Entre os mais pobres, o peso é maior. Famílias com renda de até 1,5 salário mínimo por pessoa chegam a ter metade do que ganham vinda de aposentadoria, Bolsa Família ou BPC (Benefício de Prestação Continuada). Como esse dinheiro vai quase todo para itens de primeira necessidade, ele circula logo no comércio da própria cidade, explica a economista Luiza Nassif, co-diretora do Made. “Garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, diz.

Como a simulação foi feita

A equipe contrastou dois períodos. De 2022 a 2025, BPC e aposentadorias tiveram aumento acima da inflação. De 2019 a 2022, valeu o oposto: salário mínimo sem ganho real e benefícios congelados. Com base nessa comparação, os pesquisadores projetaram três anos à frente.

Se os valores não tiverem ganho real, a renda total do interior ficará de 6,8% a 10,8% menor do que ficaria com a valorização. Nassif afirma que a perda se espalharia: seria “uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público”.

Estados mais afetados

As quedas mais fortes apareceriam no interior de Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, entre 17% e 18%. Amazonas, Sergipe e Pernambuco perderiam cerca de 15%. Em Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a retração ficaria entre 10% e 13%. Já em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a perda chegaria a 6,5%.

Mais gente na pobreza

O estudo também refez as contas do passado: sem aumento real entre 2022 e 2025, cerca de 2,7 milhões de pessoas teriam entrado na pobreza nas cidades do interior, e 2,4 milhões delas na extrema pobreza.

Em quantidade de pessoas, o maior salto seria na Bahia (até 336 mil), seguida de São Paulo (até 263 mil) e Minas Gerais (até 251 mil). Maranhão, Pará e Ceará teriam mais de 200 mil cada.

“Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, afirma Nassif. Para a economista, preservar o ganho real de aposentadorias, BPC e programas de transferência é “a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”.

O que isso significa para o leitor

Segundo os pesquisadores, o benefício pago a aposentados e famílias de baixa renda não fica só no orçamento doméstico: ele financia o comércio da cidade, os empregos e os impostos das prefeituras. Por isso, na leitura do Made-USP, travar o ganho real dos benefícios atingiria também quem não recebe nada do governo.

Benefícios sociaisBolsa FamíliaBPCAposentadoriasUSPAposentadoria

Receba as notícias do Fato em Dia. Inscreva-se no canal e acompanhe as atualizações.

Direitos autorais: se você é autor de alguma imagem, fale com a gente; trocamos em até 24 h.

Encontrou um erro ou tem uma sugestão de pauta? Fale com a redação.

Últimas de Economia

Ver tudo