Laudo aponta 12 tiros da PM em jovem em surto morto em Moema, na Zona Sul de SP
Quatro disparos causaram a morte de Gustavo Muniz de Santana, de 20 anos; governo estadual fala em mudar protocolos da PM.

Resumo
- Laudo do IC diz que Gustavo Muniz de Santana, de 20 anos, foi atingido por 12 tiros da PM em Moema.
- Quatro disparos mataram o jovem: três no tórax e um no abdômen; outros oito pegaram de raspão.
- Os quatro PMs estão afastados e o governo de SP fala em mudar os procedimentos da corporação.
Doze balas da Polícia Militar acertaram Gustavo Muniz de Santana, de 20 anos, segundo o exame de necropsia feito pelo Instituto de Criminalística (IC) paulista. A abordagem ocorreu na madrugada do dia 10 de outubro, no bairro de Moema, zona sul de São Paulo, e ele morreu ali mesmo. O conteúdo do laudo veio a público nesta sexta-feira (23).
De acordo com o laudo, quatro dos projéteis foram fatais: três acertaram o tórax e um, o abdômen. Outros oito tiros pegaram de raspão, somando ao menos 20 projéteis que o feriram de algum modo. O boletim de ocorrência, por sua vez, registra ao menos 44 disparos dos quatro PMs na direção dele.
O que mostram as câmeras
Imagens de câmeras de segurança registraram o momento. Nelas, Gustavo aparece na calçada de um estabelecimento, encostado na parede, tentando se proteger. Depois, ele busca algo na cintura, segura um telefone celular com as duas mãos e o estende em direção aos agentes. O trecho tem de 15 a 20 segundos. As gravações também indicam que ele foi baleado já caído.
Segundo o boletim, os policiais confundiram o aparelho com uma arma. Eles disseram ter sido chamados pelo Centro de Operações da PM (Copom) por causa de uma pessoa que tentaria se matar. Um dos agentes deu 14 tiros; as pistolas .40 usadas pela corporação comportam até 15 cartuchos.
Governo fala em mudar protocolos
A Secretaria da Segurança Pública afastou os PMs envolvidos, e o governo paulista afirma que vai rever os procedimentos da corporação em atendimentos a pessoas em surto. Em nota, a SSP disse que não aceita desvio de conduta dos agentes, que a morte está sob investigação rigorosa e que quem tiver cometido irregularidade será punido. Duas apurações correm em paralelo: a do DHPP, da Polícia Civil, e um Inquérito Policial Militar aberto pela própria corporação. Em menos de duas semanas, policiais militares mataram três pessoas em surto no estado.
Especialistas questionam a quantidade de tiros
A pesquisadora Giane Silvestre, ligada ao centro de estudos sobre violência da USP, disse que é “difícil encontrar uma justificativa técnico-legal” para o número de disparos. Ela lembrou que o procedimento padrão prevê uso progressivo da força, começando por menos e aumentando conforme a gravidade, e defendeu que as imagens das câmeras corporais dos policiais sejam usadas na investigação.
Especialista em segurança pública, o coronel reformado José Vicente avalia que a PM deve revisar seus protocolos, apesar de já existir procedimento padrão para esse tipo de caso. Para ele, faltam treinamento no dia a dia e recomendações mais claras. Ele disse ainda que, diante de uma ameaça iminente, a reação normalmente aceita são dois tiros no peito do oponente.
Família relata abordagens anteriores
Representante dos parentes, a advogada Ana Facíllia Meira disse que Gustavo já tinha sido abordado de forma agressiva pela PM no bairro onde morava e já havia sido agredido antes. “Não é a primeira vez que isso acontece e não é a primeira vez que tem uma abordagem agressiva”, declarou. A família acredita que ele era visto como suspeito por ser negro, mesmo morando na região.
A defesa acompanha o inquérito e diz tomar medidas para preservar provas que possam ajudar a investigação. A advogada também contesta a informação recebida pela polícia de que Gustavo tentaria se matar: segundo ela, o jovem fazia tratamento para depressão, mas nunca tinha tentado tirar a própria vida nem tido surto psicótico.
O que falta esclarecer
A PM de São Paulo usa o Método Giraldi, método de formação que prioriza a escalada gradual da força e a proteção da vida. O inquérito segue em andamento, e as imagens das câmeras dos policiais ainda precisam ser analisadas para definir o que de fato ocorreu na abordagem.
Encontrou um erro ou tem uma sugestão de pauta? Fale com a redação.





