Chefe do Instagram não sabe como barrar vídeos de IA que copiam humoristas
Adam Mosseri admite que a rede não achou solução para perfis virtuais que reproduzem piadas de artistas e lucram com conteúdo adulto.

Resumo
- O chefe do Instagram, Adam Mosseri, disse que a rede ainda não sabe como combater vídeos de IA que copiam humoristas.
- Perfis com personagens virtuais reproduzem piadas alheias, passam de 250 mil seguidores e levam o público a plataformas adultas.
- Mosseri considera inviável proibir todo conteúdo feito com IA e não anunciou nenhuma ferramenta nova.
O chefe do Instagram, Adam Mosseri, reconheceu que a plataforma ainda não tem resposta para uma nova onda de vídeos feitos com inteligência artificial (IA) que reaproveitam o trabalho de humoristas e rendem dinheiro a quem os publica. “Estamos tentando descobrir o que fazer. É um problema complicado”, escreveu o executivo, em tradução livre, ao responder a um comediante nas redes na semana passada.
Como funcionam os vídeos
O problema ganhou força depois que humoristas começaram a encontrar, no próprio Instagram, apresentações suas recriadas por mulheres que não existem. São personagens digitais que repetem as piadas, as pausas e até detalhes do cenário e da roupa do original. Parte desses perfis soma centenas de milhares de seguidores e aproveita a audiência para vender assinaturas em sites de conteúdo erótico, entre eles OnlyFans e Fanvue.
Um levantamento da revista Wired identificou oito comediantes que tiveram números reproduzidos desse jeito. Em alguns casos, a versão artificial chegou a mais gente do que o vídeo original.
O comediante George Brett Olson, por exemplo, achou uma influenciadora virtual chamada Tiffany Sloane contando uma piada sua. Na época da apuração, o perfil acumulava mais de 375 mil seguidores e anunciava uma página no OnlyFans. Julia Jasunas viu um texto seu ser repetido pela personagem Aylen Skye, com cerca de 250 mil seguidores e link para a Fanvue.
Por que a denúncia não funciona
Jasunas denunciou um dos vídeos como falsidade de identidade, e o Instagram respondeu que não havia violação das regras. O motivo: a personagem copia o conteúdo da artista sem se passar por ela. Também não se trata, a rigor, de deepfake, termo reservado a vídeos que imitam, sem autorização, as feições ou a voz de alguém que existe. Aqui, as figuras são inteiramente sintéticas.
O mecanismo de denúncia por direitos autorais, que o Instagram já oferece, tampouco resolve a maioria dos casos, sobretudo em humor e dança. Mosseri admitiu que muitos artistas não têm registro formal do que criam e defendeu a adoção de formas adicionais de proteção. Ele também lembrou o risco de denúncias falsas usadas para prejudicar outros criadores.
O que o Instagram diz que pode fazer
Para Mosseri, banir todo conteúdo gerado por IA seria inviável: esse tipo de publicação fica a cada dia mais difícil de reconhecer, e nem todas representam um problema. A rede segue permitindo material produzido por IA desde que respeite as regras e usa rótulos para marcar o conteúdo sintético, o que não impede que um vídeo artificial copie o trabalho de terceiros.
A Meta já havia dito que daria prioridade a vídeos originais. Em abril de 2024, a empresa anunciou que as recomendações do aplicativo deixariam de priorizar republicações e passariam a mostrar o vídeo original, com exceção de material muito modificado, como dublagens. A regra ajuda a explicar a dificuldade atual: os perfis denunciados criam uma personagem nova para apresentar a piada copiada, e os sistemas que procuram vídeos idênticos não pegam o truque.
Até agora, Mosseri não anunciou ferramenta ou regra específica contra a prática.
Um problema que já vinha crescendo
O uso de modelos virtuais para atrair assinantes de plataformas adultas é anterior à polêmica. Em 2023, imagens sensuais hiper-realistas feitas por IA já levantavam dúvidas sobre o futuro do OnlyFans. De lá para cá, influenciadoras artificiais passaram a juntar seguidores e a vender conteúdo exclusivo; a espanhola Aitana Lopez, criada por IA, ganhou alguns milhares de euros com anúncios e trabalhos digitais.
O caso atual soma um dado novo para quem vive de produzir conteúdo: o trabalho de uma pessoa de verdade serve, sem aviso nem pagamento, para impulsionar um personagem digital e gerar receita para os donos do perfil.
O que vem agora
Mosseri não deu prazo para uma resposta. A fala dele indica que a plataforma segue sem critério claro para separar o conteúdo sintético inofensivo da cópia que prejudica quem criou o original, e que a discussão sobre proteção a artistas sem registro formal de suas obras continua em aberto.
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