Anthropic pede IPO na Nasdaq e revela receita de US$ 16,3 bi no semestre
Documento entregue à SEC mostra faturamento 14 vezes maior que o do 1º semestre de 2025 e prejuízo de US$ 80,7 bi, quase todo contábil.

Resumo
- A Anthropic pediu à SEC, nesta segunda (26), a abertura de capital na Nasdaq, com o símbolo ANT.
- Receita do 1º semestre: US$ 16,3 bi, 14 vezes a de um ano antes; prejuízo de US$ 80,7 bi é quase só contábil.
- Preço, número de ações e data da estreia ainda não foram definidos.
A Anthropic, empresa de inteligência artificial criadora do assistente Claude, entregou nesta segunda-feira (26) à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) o pedido público de abertura de capital. Pelo formulário S-1, a companhia quer listar ações da classe A na Nasdaq, na categoria Global Select, com o símbolo “ANT”. O preço por ação e o número de papéis que serão vendidos continuam em branco nesta versão, e não há data marcada para a estreia no pregão.
O pedido é a primeira vez que a empresa abre seus números completos ao público. Veja o que o prospecto mostra.
Receita multiplicou por 14 em um ano
No primeiro semestre de 2026, a Anthropic faturou US$ 16,286 bilhões. Um ano antes, no mesmo período, tinha sido US$ 1,163 bilhão: o salto é de 14 vezes. Só os seis primeiros meses deste ano equivalem a 3,5 vezes o faturamento de 2025 inteiro, de US$ 4,585 bilhões. Em 2024, a receita foi de US$ 386 milhões e, em 2023, de US$ 41 milhões.
A base de clientes cresceu junto. Em 30 de setembro, a empresa contava com mais de 11.900 clientes que gastaram ao menos US$ 100 mil nos 12 meses anteriores, mais de 1.900 acima de US$ 1 milhão e cerca de 250 acima de US$ 10 milhões. O prospecto afirma que nenhum cliente respondeu por mais de 10% da receita nos nove meses até setembro e que 79% do faturamento do terceiro trimestre veio de fora do grupo dos cinco maiores compradores, ante cerca de 64% no primeiro trimestre.
Prejuízo de US$ 80,7 bilhões tem origem contábil
O número que mais chama atenção é o resultado líquido: perda de US$ 80,748 bilhões no semestre. A conta, porém, precisa ser lida por partes. Segundo a própria empresa, US$ 72,388 bilhões vêm da variação do valor justo de notas conversíveis, derivativos e acordos de investimento futuro (os chamados SAFEs). Esses instrumentos são reavaliados a cada balanço e, como o valor da companhia sobe, a obrigação registrada também sobe e entra como despesa, sem saída de caixa.
Tirando essa linha, a perda do semestre cai para cerca de US$ 8,4 bilhões (conta própria: 80,748 menos 72,388), e ainda inclui outras despesas, como US$ 8,8 bilhões em “outras receitas e despesas”. O resultado operacional, que mede o negócio em si, ficou negativo em US$ 693 milhões, o equivalente a 4,3% da receita. No 1º semestre de 2025, o prejuízo operacional foi de US$ 2,135 bilhões, ou 184% do faturamento da época.
Para onde vai o dinheiro
As despesas operacionais somaram US$ 16,979 bilhões no semestre. A maior fatia, US$ 8,945 bilhões, é computação e infraestrutura, o equivalente a 55% da receita. Pessoal custou US$ 3,152 bilhões, e vendas, marketing e parcerias, US$ 3,168 bilhões, contra apenas US$ 120 milhões um ano antes. A empresa tinha cerca de 5.300 funcionários em 30 de setembro.
Em 2025, o resultado também carregou US$ 1,5 bilhão de um acordo judicial, identificado no documento como “Bartz settlement”.
Até 30 de junho, a Anthropic havia captado US$ 141,1 bilhões em recursos e mantinha US$ 112,4 bilhões em caixa e equivalentes, além de US$ 19,3 bilhões em aplicações de curto prazo.
Quem manda na empresa depois da abertura
A Anthropic é uma corporação de benefício público, modelo previsto na lei de Delaware que obriga os administradores a equilibrar o lucro dos acionistas com o interesse de quem é afetado pela empresa e com a finalidade declarada no estatuto: o desenvolvimento responsável de IA avançada em benefício de longo prazo da humanidade.
O prospecto descreve uma estrutura de controle incomum:
- Long-Term Benefit Trust: um fundo de curadores independentes, dono das ações classe T, que elege e destitui os conselheiros dessa classe, que serão maioria no conselho;
- Ações classe F: uma única ação, nas mãos de uma sociedade dos cofundadores (Dario Amodei, presidente-executivo, Daniela Amodei, presidente do conselho, e outros cinco), com 50,1% do poder de voto, sem direito econômico;
- Ações classe E: destinadas aos funcionários que não são cofundadores, com voto limitado e sem direito econômico;
- Ações classe A: as que serão vendidas ao público, com um voto por papel.
Por essa estrutura, a empresa se enquadra como “companhia controlada” nas regras da Nasdaq, o que permite dispensar alguns requisitos de governança aplicáveis às demais.
O que ainda falta saber
O S-1 é a versão preliminar: o texto diz que a oferta só pode ser concluída depois que a SEC declarar o registro efetivo. Ficaram em branco o intervalo de preço, a divisão entre ações novas e vendidas por acionistas atuais e a data prevista. Também não há, nesta versão, a receita anualizada de setembro, apenas as faixas de clientes. Para o investidor brasileiro, o acesso aos papéis dependerá de corretoras que operem na bolsa americana ou de fundos e BDRs, caso apareçam; nada disso foi anunciado.
O documento completo, com os anexos, está no sistema Edgar, da SEC, sob o registro da Anthropic, PBC.
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