PF liga cartel de postos do Rio a empresas do PCC investigadas na Carbono Oculto
Relatório da Unha e Carne aponta empresa de R$ 10 mil de capital que movimentou R$ 45 milhões e fintech citada nas duas apurações.

A Polícia Federal encontrou pontos de contato entre o grupo suspeito de formar um cartel de postos de combustíveis no Rio de Janeiro e empresas ligadas ao PCC que são alvo da Operação Carbono Oculto. A informação consta de relatório da investigação, segundo reportagem do jornal O Globo publicada neste sábado (17).
Onde as duas investigações se cruzam
A 8ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada na quinta-feira (15), mirou um grupo suspeito de combinar preços e de lavar dinheiro por meio de postos de combustíveis. Já a Carbono Oculto apura como a facção paulista se infiltrou em setores formais da economia, e um deles é o de combustíveis. Ao solicitar as prisões do deputado estadual eleito Márcio Canella e do ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim, a PF escreveu que as quadrilhas escolhem esse setor para lavar ativos por causa da “alta liquidez, do intenso fluxo de dinheiro em espécie e da facilidade intrínseca de simular faturamento e misturar receitas lícitas e ilícitas”.
O elo apontado pelos investigadores é a ADM OIL Prestadora de Serviços, empresa com capital social de R$ 10 mil que, mesmo assim, movimentou R$ 45 milhões. Para a PF, ela funcionava como uma espécie de câmara de compensação: recebia dinheiro dos postos e o repassava a pessoas físicas e jurídicas ligadas ao grupo.
Auxiliar de escritório e R$ 169 milhões em depósitos
O relatório chama de “operadora de campo” do esquema uma mulher que a ADM OIL contratou em 2020 como auxiliar de escritório, com salário de R$ 2 mil. Mesmo assim, ela teria depositado R$ 169,4 milhões em instituições financeiras; para a PF, eram valores “de origem nebulosa” enviados à rede de postos e a uma distribuidora.
Parte desses repasses chegou à Tobras Distribuidora de Combustíveis, alvo da fase mais recente da Carbono Oculto, feita em São Paulo. A suspeita é de que a usina esteja envolvida na lavagem de dinheiro do PCC.
A quebra de sigilo bancário também mostrou, segundo a investigação, que a ADM OIL repassou R$ 70 mil por mês, durante dois anos, à Mamim Consultoria, empresa do delegado e ex-secretário Marcus Amim e da esposa dele. O total ultrapassa R$ 1,8 milhão.
O papel da fintech BK Bank
Outro ponto de interseção é a fintech BK Bank (BK Instituição de Pagamento). Segundo os investigadores, a empresa tem papel central no braço financeiro da facção e atuava na captação de recursos e na compra de empresas, o que ajudava a ocultar a origem do dinheiro. O método principal era o uso de “contas bolsão”, nas quais valores de vários clientes ficam reunidos numa só conta. Isso permite compensações internas e dificulta o rastreamento pelos sistemas contra lavagem de dinheiro.
No caso do Rio, a mulher citada no relatório tinha uma conta pessoal no BK Bank que funcionava em regime de “espelhamento”, com créditos e débitos simétricos e imediatos. As movimentações tidas como atípicas na instituição chegam a aproximadamente R$ 17,7 bilhões em entradas, com o mesmo montante em saídas, envolvendo empresas ligadas ao PCC. Grande parte desse fluxo transitou pela unidade de Ribeirão Preto, diretamente ligada à presença do grupo em usinas e distribuidoras do setor. Num segundo eixo, a fintech teria sido o canal de uma rede de postos com movimentação superior a R$ 54 bilhões. Essa rede recolheu ao fisco só 0,17% do valor em tributos, percentual que os investigadores consideram incompatível com empresas do regime de lucro real.
O que dizem os citados
O advogado Thiago Minagé, que defende Marcus Amim, preferiu não se manifestar. Procuradas, a mulher citada, a Tobras Distribuidora e o BK Bank não responderam. A reportagem de O Globo não obteve contato com a ADM OIL. Os alvos são investigados, e não há condenação.
Contexto
A Justiça Federal manteve na sexta-feira (16) a prisão preventiva dos seis presos na fase da quinta, entre eles Canella e Amim. A operação cumpriu seis mandados de prisão e 16 de busca e determinou a suspensão de 112 empresas, das quais 96 são postos de combustível, como mostrou a cobertura anterior do Fato em Dia.
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