Haven-1, 1ª estação espacial comercial, pode levar minicérebros de brasileiro
Módulo da empresa Vast, previsto para 2027, será alugado a laboratórios; neurocientista Alysson Muotri quer estudar o Alzheimer no espaço

A partir de 2027, a órbita da Terra deve ganhar uma novidade: uma estação espacial que não é de nenhum governo, onde astronautas vão morar, trabalhar e fazer experimentos. Batizado de Haven-1, o módulo da empresa americana Vast será a primeira estação espacial comercial do mundo e funcionará como uma espécie de hotel de laboratórios em órbita. Entre os experimentos que podem ir a bordo está o do neurocientista brasileiro Alysson Muotri, que pretende estudar o Alzheimer com minicérebros humanos.
Como vai funcionar
O lançamento, marcado para 2027, será feito por um Falcon 9, foguete da SpaceX. A primeira tripulação deve chegar uns 30 dias após o módulo alcançar a órbita, a bordo de uma Dragon, a cápsula da mesma empresa, que ficará presa à estação.
A Estação Espacial Internacional (ISS) foi erguida e é mantida por um grupo de países. A da Vast é um negócio privado, que vai crescer aos poucos: a Haven-1 é só a primeira peça de um conjunto de módulos que a empresa pretende lançar. A ideia, desde o início, é oferecer uma plataforma de pesquisa aberta a empresas: empresas especializadas em carga científica sobem com experimentos seus ou de clientes, que ficam em gavetas vizinhas e retornam à Terra quando o trabalho termina.
Assim, já no primeiro módulo haverá pesquisa a bordo, num momento em que a ISS ainda está em funcionamento e o setor começa a migrar para estações comerciais.
Por dentro do módulo
Por dentro, a Haven-1 é bem diferente do que se vê nas estações atuais. Na ISS, tubos de metal, fios e aparelhos ficam à mostra, resultado de um projeto feito para funcionar, não para agradar aos olhos. O módulo da Vast tem paredes brancas e lisas, linhas limpas e um layout pensado para quem passa semanas sem gravidade.
Quem chega entra pela escotilha onde a Dragon se acopla, perto do posto de contato com o controle em solo. Os leitos ficam nas paredes laterais, ao lado dos armários, e são infláveis: assim seguram o astronauta no lugar enquanto ele dorme, já que no espaço tudo flutua. Há barras de apoio espalhadas pelo módulo para a tripulação se mover. Uma área ainda sem projeto final vai abrigar os aparelhos de análise usados pelos pesquisadores.
O brasileiro e os minicérebros
Muotri leciona na Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), onde comanda o programa de células-tronco, e é referência internacional no estudo de distúrbios do neurodesenvolvimento, com destaque para o autismo. A pesquisa dele trabalha com minicérebros: aglomerados de células produzidos em laboratório, a partir de células-tronco, que reproduzem o cérebro de um bebê ainda em desenvolvimento.
A proposta é levar esses minicérebros à órbita, envelhecê-los lá e trazê-los de volta à Terra para uma série de análises sobre o Alzheimer. Numa réplica da estação montada em San Diego, ele apresentou o local onde o experimento vai ficar: “Esse daqui é o futuro laboratório espacial para crescimento dos minicérebros”, explicou.
Muotri já havia sido cotado para ir ao espaço em 2023, a bordo da ISS, mas a viagem foi suspensa, segundo ele por cortes de orçamento da Nasa. A nova chance, na Haven-1, como cientista-astronauta, ainda não tem data nem plano fechado. Segundo o pesquisador, a viagem só sai quando os aparelhos de análise que ele precisa usar em órbita estiverem prontos.
O que vem a seguir
Antes de qualquer pesquisador subir, a Vast precisa levar o módulo ao espaço em 2027 e validar o funcionamento da estação em órbita. Só depois disso a empresa poderá começar a receber clientes, num modelo em que laboratórios contratam a “estadia” para desenvolver suas pesquisas.
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