Exame de sangue para Alzheimer começa a ser oferecido no Brasil por cerca de R$ 3 mil
Teste mede a proteína p-tau217, serve só para quem já tem sintomas e, por ora, está em um único hospital de Porto Alegre; SUS não tem previsão.
Um exame de sangue capaz de indicar se o cérebro carrega as marcas biológicas do Alzheimer passou a ser oferecido no Brasil nesta quinta-feira (15). Por enquanto, só um serviço trabalha com ele: o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). O teste mede no sangue a proteína p-tau217 e, em boa parte dos casos, pode dispensar a punção lombar ou o exame de imagem usados hoje para confirmar a doença.
O preço estimado é de cerca de R$ 3 mil, na rede privada. A indicação é restrita: o exame se destina a quem já apresenta sintomas e tem suspeita clínica de Alzheimer, sempre a pedido do médico que acompanha o paciente. A bula limita o uso a pessoas com mais de 50 anos, porque abaixo dessa idade o significado do resultado é desconhecido.
O que o exame mede
A p-tau217 é uma versão quimicamente modificada da proteína tau, que existe nas células nervosas. Seus níveis no sangue acompanham o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro, uma das marcas biológicas do Alzheimer. O teste, portanto, não mede a demência em si, e sim um sinal indireto dessas alterações.
O resultado pode vir positivo, negativo ou inconclusivo. Eduardo Zimmer, pesquisador do hospital e responsável por implantar o exame, calcula que de 15% a 20% dos testes caiam nessa faixa intermediária. Nesses casos, o médico pode pedir um PET (tomografia por emissão de pósitrons), analisar o líquor ou repetir o exame de sangue depois de 12 meses.
Quão confiável é
O desempenho da plataforma usada, a Lumipulse, da fabricante belga Fujirebio, foi avaliado em um estudo publicado em 2025 na revista Nature Medicine, com 1.767 pessoas com sintomas cognitivos atendidas na Suécia, na Espanha e na Itália. Em serviços especializados, o sangue coincidiu com o resultado do líquor em 89% a 91% dos pacientes quando se usou um único ponto de corte. Com dois pontos de corte, a coincidência subiu para 92% a 94%, ao custo de deixar de 12% a 17% dos participantes sem resposta definida.
A precisão foi menor em pessoas com 80 anos ou mais (83%), e os voluntários eram europeus. Os dados de validação feitos pelo hospital, segundo Zimmer, chegam a 0,95 numa escala em que 1 é o acerto perfeito, mas ainda não passaram por revisão de outros cientistas: o artigo será divulgado como preprint nesta semana.
Uma peça do quebra-cabeça
O neurologista Renato Anghinah, da Faculdade de Medicina do ABC e da USP, ressalta que o exame só faz sentido quando a queixa já foi confirmada por testes que mostrem algum declínio, ainda que pequeno. Esquecimento isolado, sem outro sinal, não justifica o pedido. Em quem não tem sintomas, um resultado positivo não tem significado estabelecido, e não há tratamento aprovado para essa fase.
Para Anghinah, a novidade não está na precisão, que é parecida com a do PET e a da punção lombar (em torno de 90%), mas no acesso. O PET exige estrutura de medicina nuclear e custa caro; a punção é invasiva e desconfortável. A dosagem em si também não é inédita: o que mudou foi a regularização da família de produtos Lumipulse G pTau 217 Plasma pela Anvisa, em 17 de agosto. Antes, quem quisesse um teste equivalente precisava mandar a amostra a um laboratório nos Estados Unidos.
E o SUS?
O hospital diz esperar que a tecnologia seja avaliada na rede pública ainda em 2026, por meio de parcerias no Proadi-SUS. O Ministério da Saúde, porém, informa que não há projeto em execução com essa tecnologia e que nenhuma demanda para o exame chegou à Conitec, comissão que avalia eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário antes de qualquer incorporação. Enquanto isso, o diagnóstico no SUS segue baseado em avaliação clínica e em exames laboratoriais e de imagem, como tomografia e ressonância.
A cobertura por planos de saúde também não está confirmada: o hospital planeja integrar o teste às operadoras ainda neste ano, sem dizer quais nem quando.
O que muda na prática
Para o paciente, o ganho esperado é chegar mais rápido, e com menos desconforto, à causa dos sintomas. No Brasil há dois medicamentos para fases iniciais, o donanemabe e o lecanemabe, que, com diagnóstico precoce, podem reduzir de 20% a 30% a velocidade de progressão em alguns pacientes. Eles retardam a evolução, mas não interrompem a doença.
Quem percebe esquecimentos repetidos deve procurar um profissional de saúde, em geral um neurologista; geriatras e psiquiatras também atuam na área. É o médico quem decide, depois da avaliação e de testes cognitivos, se o exame de sangue é indicado.
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