Operação Backbone: PF prende mãe e irmão de Oruam e mira internet do CV no Rio
Ação contra o domínio armado da internet em Alemão, Penha e Chapadão tem 23 mandados de prisão e bloqueio de até R$ 558 milhões.

ATUALIZAÇÃO (19/10, 10h55): a mãe e um irmão do rapper Oruam, Márcia Gama Nepomuceno e Lucas Santos Nepomuceno, o Lucca, foram presos na operação. O pai do cantor, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, que já cumpre pena no sistema penitenciário federal, também é alvo: ele é o chefe que, segundo a PF, segue no comando dos negócios da facção com a ajuda de parentes. Os mandados foram expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Não há informação de que Oruam seja investigado nesta ação. Em abril, o rapper, a mãe e o irmão foram alvos de outra investigação, da Polícia Civil do Rio, sobre lavagem de dinheiro do CV. As defesas dos presos não haviam se manifestado até a última atualização desta matéria.
A Polícia Federal foi às ruas na manhã desta segunda-feira (19) para desmontar o esquema que, segundo a investigação, permite a uma facção criminosa dominar à força o serviço de internet em três grandes conjuntos de comunidades do Rio: Complexo do Alemão, Complexo da Penha e Chapadão. Batizada de Operação Backbone, a ação reúne 23 prisões preventivas e 24 buscas, todas autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. O comunicado da PF não cita o nome do grupo, que é o Comando Vermelho (CV).
Seis cidades e bloqueio bilionário
Os agentes atuam no Rio de Janeiro, em Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé. Uma parte dos mandados de prisão alcança investigados que já estão no sistema prisional, inclusive numa unidade do Sistema Penitenciário Federal. Na manhã de segunda, 19 dos mandados de prisão já tinham sido cumpridos. Um dos presos é o vereador do Rio Fábio Silva (Podemos), localizado em Londrina, no Paraná.
A Justiça também determinou o bloqueio de bens e valores que podem chegar a R$ 558 milhões, atingindo 40 pessoas e 42 empresas. As atividades econômicas dessas companhias foram suspensas. A lista inclui provedores de internet, produtoras de eventos, uma firma de contabilidade e empresas de fachada que, para a PF, serviam para esconder a origem do dinheiro.
Como funcionava o “monopólio”
A investigação descreve um método de intimidação. Homens armados da facção destroem a fiação e queimam os armários de distribuição das operadoras legais e das rivais, barram as equipes de manutenção e forçam moradores e lojistas a assinar o que a PF chama de “internet do tráfico”. Os provedores que a facção autoriza pagam uma “tarifa” mensal pelo direito de operar no território.
Os números levantados pelos investigadores mostram o tamanho do negócio. A contabilidade atribuída ao próprio grupo mostra que, em apenas um mês, a internet foi responsável por mais de 40% de tudo o que a facção arrecadou no Complexo da Penha. Para a PF, essa atividade virou uma das principais fontes de lucro do crime organizado e alimenta a guerra por território: cada comunidade controlada é uma carteira de clientes que não tem outra opção.
Líder preso e lavagem de dinheiro
Segundo as apurações, um dos chefes da facção, preso há quase três décadas e hoje sob custódia do Sistema Penitenciário Federal, continua a comandar os negócios nesses territórios junto com familiares e outras lideranças. O dinheiro chegava aos parentes do chefe por empresas que recolhiam os valores, operadores financeiros e contas usadas só para a passagem dos recursos. Depois, era disfarçado em produtoras de eventos, agências de publicidade, imóveis de alto padrão pagos em dinheiro vivo e criptoativos.
Crimes investigados e próximos passos
Os investigados vão responder por domínio social estruturado, crime que atinge grupos que usam violência, ameaça grave e coação para impor controle sobre um território e sua população, intimidar a população, reprimir autoridades e atacar serviços essenciais. A lista de possíveis crimes inclui ainda lavagem de dinheiro, extorsão com agravantes, ataque a serviço público essencial, corte de serviço de telecomunicação e montagem clandestina de redes de telecomunicações, sem excluir outros que surjam durante a apuração.
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) será oficiada para cassar as outorgas e interditar os serviços prestados pelas empresas alvo da operação. A PF diz que serão adotadas medidas para que os moradores das áreas atingidas não fiquem sem conexão.
A Backbone integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela PF para combater organizações criminosas no Rio de Janeiro, seguindo as diretrizes fixadas pelo STF na ADPF 635, a ação que trata da atuação policial em favelas do estado.
A PF não divulgou, no comunicado, os nomes dos alvos nem quem faz a defesa deles. Todos são investigados e, até que haja condenação, não podem ser tratados como culpados.
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